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COMUNICAÇÃO, LINGUAGEM - Noções preliminares
Indice del artículo
COMUNICAÇÃO, LINGUAGEM
Noções preliminares
A linguagem de crianças e de pessoas com Síndrome de Down
A intervenção fonoaudiológica
A fala nas crianças com síndrome de down
Todas las páginas

Noções preliminares

A comunicação é o intercambio de informação entre duas ou mais pessoas e constitui um aspecto fundamental na vida de todos. Quase se poderia dizer que as pessoas vivem na medida em que se comunicam umas com as outras. Desde que nasce, a criança se comunica com sua mãe e sua mãe com ela. Quando tem fome, a criança chora, quanto está contente sorri, e ainda quando sua mãe a abraça, ela percebe seu calor, seu carinho e isso dá a ela segurança e confiança. Pelo olfato e o ouvido o bebê reconhece sua mãe e entende que está com ela. Estes são apenas alguns exemplos de como mãe e filho interagem constantemente.

Além disso, a comunicação abrange numerosas facetas da vida do ser humano, e uma interação adequada com os outros forma as bases do desenvolvimento e do crescimento das pessoas. Lembremos que o ser humano é um ser social e, como tal, precisa, tanto física como psiquicamente, da interação com outras pessoas. Definitivamente, a importância da comunicação é tal que merece uma sessão destinada somente a ela.

Como veremos nas diferentes partes, junto à comunicação está a linguagem. A relação entre linguagem e pensamento está amplamente demonstrada, sendo vital sua importância no desenvolvimento dos seres humanos. Se ainda lembramos que esta área é especialmente difícil não só para as crianças, mas também para os adultos com síndrome de Down, a existência da sessão está mais que justificada.

As partes que compõem esta sessão estão dirigidas fundamentalmente aos pais e familiares de pessoas com síndrome de Down, aos estudantes interessados tanto na síndrome de Down como na linguagem e aos profissionais não especialistas em síndrome de Down ou em linguagem. Portanto, o objetivo desta sessão é informar a estes grupos de pessoas sobre os aspectos mais característicos da comunicação, da linguagem e da fala de pessoas com síndrome de Down.

Antes de entrar nos aspectos práticos, é necessário esclarecer certas questões e noções. Vamos a agrupar estas nos seguintes temas:

1.- Comunicação, Linguagem e Fala
2.- Bases Anatômicas da Linguagem e da Fala
3.- Dimensões da Linguagem
4.- Funções da Linguagem


1. Comunicação, Linguagem e Fala

 

A comunicação é o intercâmbio de informação entre seres.

A comunicação não é uma característica exclusiva do ser humano, uma vez que existe comunicação entre uma pessoa e um animal ou entre animas. É o processo mediante o qual um emissor envia uma mensagem a um receptor que pode compreendê-la.

A comunicação quer dizer o intercâmbio de informação, pode ser feita através de diversos canais: pode ser através do tato, através do olhar, através de expressões faciais ou movimentos do corpo, através da voz...

Habitualmente, quando duas pessoas se comunicam e, principalmente, na medida em que a informação é mais complexa e abstrata, se utiliza um código simbólico estabelecido. Isto é, as idéias, os objetos ou as ações se representam mediante símbolos que ambos os interlocutores devem conhecer para que a comunicação seja eficaz. Este código simbólico é o que se conhece pelo nome de linguagem.

O seguinte exemplo serve para ilustrar as diferenças entre comunicação e linguagem: quando um bebê termina de comer, olha para sua mãe e sorri, está se comunicando com ela, mas não o faz mediante um código simbólico. Entretanto, quando uma criança diz "pão", está sim utilizando um símbolo, neste caso fonético, para indicar que quer esse alimento concreto.

Mas a linguagem não é necessariamente oral. Existem linguagens constituídas por gestos, como a linguagem de sinais das pessoas surdas, ou linguagens constituídas por símbolos pictográficos, como aqueles que utilizam as pessoas com graves alterações motoras. Entretanto, parece evidente que a linguagem humana é por excelência a linguagem oral, isto é, aquela formada por uma série de símbolos que emitimos verbalmente (linguagem falada), e que além do mais tem uma representação física (linguagem escrita). É na linguagem oral que vamos nos concentrar agora em diante.

Cabe diferenciar aqui dois tipos de linguagem pela importância que têm no desenvolvimento das crianças com síndrome de Down:

- a linguagem compreensiva ou receptiva, que faz referência à compreensão da mensagem que chega a nós;
e
- a linguagem expressiva, que é a elaboração da mensagem que se deseja enviar.

Por último, a expressão verbal da linguagem é o que se chama de fala. A fala é um sistema complexo por meio do qual se converte uma idéia em um conjunto de sons que tem significado para a pessoa que os escuta. Na expressão oral da linguagem, isto é, na fala, intervêm mecanismos mentais e físicos muito complexos, que costumam constituir uma das maiores dificuldades para as pessoas com síndrome de Down.

2. Bases Anatômicas da Linguagem e da Fala

Na linguagem e na fala intervém processos complicados dos quais participam o sistema nervoso central, o sistema auditivo e o aparelho fonador.
Parte desta informação se expõe detalhadamente na sessão Saúde, assim, esta parte se concentrará no aparelho fonador, que é aquele que está envolvido nos mecanismos de fala.

Para poder emitir um som concreto, isto é, para que a “fonação” tenha lugar, são necessários:

- Uma fonte de energia (ar sob pressão que se expulsa na expiração)
- Um órgão vibratório (as cordas vocais)
- Uma caixa de ressonância (fossas nasais, boca e faringe)
- Um sistema de articulação de sons (lábios, língua, dentes, palato)
- Um sistema que regule e sincronize todo o conjunto.

Por isto, os órgãos implicados na fala são os órgãos respiratórios, os órgãos de fonação e os órgãos de articulação.

a) Órgãos respiratórios.

A respiração não serve somente para levar oxigênio ao sangue. Também leva a quantidade de ar suficiente para poder mover os diferentes órgãos e emitir os sons. Os órgãos implicados na respiração são: os pulmões, o brônquios, a traquéia e as fossas nasais.

Os pulmões possuem dois movimentos regulares e rítmicos: a inspiração ou entrada de ar e a expiração ou saída, sendo neste último caso que se pode produzir um som articulado. Nestes casos, ao sair dos pulmões, o ar passa pelos brônquios, traquéia, laringe, parte da faringe e, conforme os fonemas, pela boca ou fossas nasais.

b) Órgãos de fonação

O órgão de fonação por excelência é a laringe, composta por uma série de cartilagens e músculos situados entre a faringe e a traquéia. A laringe se divide em três zonas: a dos ligamentos da região da glote, a zona superior a esta ou vestíbulo laríngeo e a inferior ou subglote.
São precisamente estes ligamentos que, com seus movimentos ao passar o ar, fazem que um som tenha uma determinada intensidade, tom ou timbre. Este som é a voz propriamente dita.

c) Órgãos articulatórios

O ar saiu dos pulmões, produziu um som ao passar pelas cordas vocais, mas agora deve concentrar-se neste som. Isto é, é nestes órgãos onde se elabora o som concreto que queremos emitir.

O órgão articulatório por excelência é a língua, pois graças a suas diferentes formas e posições se produzem fonemas. Algumas crianças com síndrome de Down têm hipotonia neste músculo, daí a importância dos exercícios desde idade precoce, colocando a língua em diferentes posições e movimentos para alcançar um controle maior.

Além da língua, intervêm na fala os lábios, o palato (tanto sua parte dura como sua parte mole), os alvéolos (zona de transição entre os incisivos superiores e o palato), os dentes e as fossas nasais.

3. Dimensões da linguagem

A linguagem tem três dimensões: a forma, o conteúdo e o uso. Frente a uma mensagem falada, a forma faz referência a como se diz algo, o conteúdo faz referência ao que se diz, por último, o uso faz referência à correta utilização da linguagem, em um determinado contexto e com finalidades determinadas.

a) A forma

Esta dimensão da linguagem possui dois componentes: o fonológico e o sintático.

- O nível fonológico.

Refere-se aos fonemas, isto é, aos sons que formam as palavras. Dentro deste nível, pode-se diferenciar a fonética e a fonologia. A fonética estuda os sons enquanto que a fonologia estuda os fonemas. Ao falar, se realizam e são percebidos um número muito variado de sons, e por outro lado, existe uma série limitada de regras que formam o sistema expressivo de uma língua. A disciplina que se ocupa dos sons é a fonética, enquanto que a fonologia se ocupa das regras e organização do significante ou da forma de uma palavra. A fonética estuda os sons, e a fonologia opera com abstrações, isto é, com fonemas.

Para explicar isto, vamos utilizar o seguinte exemplo: pensemos em "PINHO". Seu significante é formado por essa série de sons /p/, /i/, /n/, /h/ e /o/ que unidos e articulados formam a palavra /pinho/. Seu significado é o que simboliza, isto é, a madeira de uma árvore com determinadas características que a diferenciam do resto das árvores. Se tomarmos a palavra "VINHO", vemos que seus significantes são muito parecidos, na realidade só diferem um dos fonemas: /p/ e /v/. Mas seus significados não têm nada a ver. Pois bem, a fonética estudará todos os sons, enquanto que a fonologia se fixará nos fonemas /p/ e /v/ pelo seu valor como elementos diferenciadores de ambos significantes.

Transpondo isto à articulação das crianças, uma criança não é capaz de emitir o som /t/ de maneira isolada tem uma alteração fonética, a criança que é capaz de pronunciar o som /t/ de maneira isolada, mas não é capaz de incluir esse som na articulação de palavras, substituindo-o pelo fonema /k/, por exemplo, tem uma alteração fonológica.

- O nível sintático

A sintaxe faz referência à gramática ou estrutura da linguagem, isto é, a ordem em que as diferentes partes da fala se apresentam em uma oração.

Sua função primordial é combinar as palavras de uma determinada língua para formar orações. Na sua forma mais simples, as orações compõem-se de sujeito, verbo e predicado. Este é um dos níveis em que as pessoas com síndrome de Down costumam apresentar mais dificuldades.

b) O conteúdo

O nível semântico é o que faz referência ao significado do que se diz. Nas unidades deste nível são as palavras e os morfemas.

Os morfemas são as pequenas partículas incluídas em muitas palavras, que isoladas não significam nada, mas que unidas a outros segmentos (raiz) fazem que o enunciado proporcione uma ou outra informação. Por exemplo, A palavra "casa" tem significado por si própria. A palavra "casinha" significa uma casa pequena, e é produto da união da raiz "casa" e do morfema "inha" que significa pequeno, mas se pronunciarmos apenas "inha" não estamos dizendo nada. O vocabulário forma parte do nível semântico da linguagem.

c) O uso da linguagem

A linguagem pragmática refere-se ao uso social e interativo da linguagem. É a comunicação da vida real. Trata-se de um aspecto muito importante porque, definitivamente, é o que faz com que uma pessoa utilize a linguagem adequadamente para se comunicar com o resto das pessoas pela conversação.

Compreende muitos aspectos que se enumeram a seguir, obtidos de Libby Kumin, especialista em linguagem e fala:

1. Cinética: é o uso de gestos na comunicação, como, sinalizar, assentir com a cabeça, expressar dúvida, etc.

2. Proxêmica: é o conhecimento do espaço e distância que deve manter-se com o interlocutor dependendo da relação que se tem com ele.

3. Intenção: refere-se ao propósito da conversação, isto é, a intenção é adequada, se ao dizer uma frase conseguimos o que queríamos expressar.

4. Contato visual: manter o olhar no interlocutor.

5. Expressão facial: a expressão facial acompanha a linguagem oral, sendo seu papel tão importante que quando parecem contraditórios, costumamos nos guiar pela informação facial mais que pela oral.

6. Faculdades conversacionais: iniciar uma conversação, respeitar os turnos, responder, fazer perguntas, terminar um diálogo, interromper, etc., são aspectos que tornam fluente uma conversação

7. Variações estilísticas: é a capacidade para adaptar a comunicação às pessoas que nos escutam: não é o mesmo se dirigir a um professor que a um padre ou a um vendedor.

8. Pressuposições: referem-se ao que pressupomos que quem nos escuta sabe sobre o que estamos dizendo. Implica ter uma capacidade para nos colocar no lugar do outro.

9. Tematização: trata-se de manter e aprofundar um tema, sem mudar continuamente de tema.

10. Petições.

11. Esclarecimento: refere-se ao pedido de explicações sobre algo que não se tenha entendido, ou confirmar o entendimento correto da mensagem.


4. Funções da linguagem

Dar uma resposta à pergunta "para que serve a linguagem?" pode parecer óbvia, mas vale a pena lhe dedicar umas linhas a esta questão, de modo que reflitamos sobre a importância da função lingüística e de sua influência no desenvolvimento geral da criança.

Dois dos fonoaudiólogos mais importantes da Espanha (Marcos Monfort e Adoración Juárez), enumeram uma série de funções que desenvolve a linguagem:

a) A linguagem é o principal meio de comunicação. Não é o único que utilizamos para nos comunicar, mas é sim o mais relevante.

b) A linguagem é o instrumento do pensamento e da ação. Muito se tem discutido sobre isto, mas finalmente os autores admitem que exista um desenvolvimento paralelo da linguagem e do pensamento, sendo a linguagem o representante do pensamento.

c) A linguagem atua como fator estruturante e regulador da personalidade e do comportamento social. Por um lado, a linguagem permite falar (seja em voz alta ou com linguagem interior) do que sentimos ou das causas que nos têm levado a atuar de uma determinada maneira. Este é um tipo de comportamento puramente humano. Por outro, contribui à redução das condutas que não se desejam: quando explicamos a uma criança pequena alguma norma, dizemos a ela "isso não se faz" ou "é assim que se faz" Por exemplo, não queremos que cuspa a comida, mas não encontramos uma justificativa que seja compreensível para uma criança nessa idade. Então utilizamos a linguagem para evitar essa conduta.

b) A linguagem oral constitui o principal meio de informação e cultura, é um fator importante de identificação em um grupo social. Praticamente toda a informação que recebemos utiliza a linguagem como meio de comunicação: televisão, rádio, livros, jornais e revistas... Seja oral ou escrita, é o meio mais habitual de conhecer outras realidades diferentes da nossa, tanto culturais como sociais, históricas, geográficas ou científicas. Por outro lado, em função das características da linguagem que utiliza uma pessoa, é fácil deduzir a que grupo pertence, tanto social como de procedência geográfica.

Tradução para Canal Down21: Ubiratan Garcia Vieira